MARIA CABEÇA


MISTÉRIOS DO AMOR

Hesíodo, o historiador grego, jura de pé junto que Eros era filho do Caos. Se isso for verdade Eros é um deus muito antigo, um dos primeiros que apareceram em meio à batelada de deuses que posteriormente habitaram nos condomínios de luxo do Olimpo.

E é o mesmo Hesíodo quem também afirma com todas as letras que Eros sempre foi boa pinta e que as mulheres jamais o resistiram. Até mesmo as feministas se descabelavam por Eros, deusas, semi-deusas e mortais invariavelmente caiam a seus pés, todas fulminadas pela beleza do deus do Amor.

Mas que ninguém se iluda. Apesar de ter feito muita besteira, de medíocre Eros não tinha nada. Ao contrário, era inteligente e corajoso, tendo ajudado inclusive o Mundo a sair do Caos.

Entre todos os mistérios que pairam sobre Eros talvez o maior deles seja mesmo o que diz respeito aos seus progenitores.

Apesar de todos os testes de DNA feitos no Olimpo, ninguém sabe precisar até hoje quem realmente é a mãe e o pai de Eros. Há quem aposte em Afrodite com Zeus. Outros dizem que seu pai foi Ares, e há ainda aqueles que afirmam que sua paternidade provém de Hermes.

Para complicar ainda mais a situação surge o Banquete de Platão, livro no qual o filósofo apresenta Eros como filho de um deus mauricinho chamado Poros com a esfarrapada deusa Pênia, a Pobreza.

Nessa linha de pensamento, tudo teria acontecido no banquete que os deuses fizeram para comemorar o nascimento de Afrodite, para o qual Poros também foi convidado.

Embriagado de néctar, Poros acabou adormecendo nos jardins do Olimpo, enquanto Pênia o espreitava à distância, com seus olhos esbugalhados e ávidos de desejo. Em dado instante, a Pobreza não se conteve e resolveu seduzir o deus mauricinho enquanto ele dormia, tendo engravidado de Eros.

Gerado na festa natalícia de Afrodite, Eros incorporou-se à legião dos seguidores daquela deusa, e também tornou-se um amante da beleza já que, além do mais, Afrodite sempre esteve entre as divindades mais belas do Olimpo.

Mas Eros é sempre um deus pobre. E também nada tem de belo e delicado como a maioria imagina. Eros é grosseiro e sujo. Dorme ao relento junto às portas, baixo as estrelas e sobre a terra nua. Por outro lado, é extremamente sagaz e está sempre a espreita de belos corpos e almas que aprisiona sem a menor cerimônia com seus ardis altamente elaborados. Eros é um sedutor terrível em torno do qual sempre há intriga, e também não é mortal nem imortal.

Quando tudo anda bem surge radiante, em plena vida, mas pode morrer no instante seguinte, para renascer novamente mais tarde e assim sucessivamente. Tudo o que conquista lhe escapa das mãos, o que faz dele um deus que nunca é totalmente rico nem totalmente pobre. Assim é Eros, o misterioso deus do Amor, segundo Platão.

POEMA CARETA

Para Julie London, minha amiga escritora

Peguei a raiva e soquei num pilão
Das cinzas fiz um baseado e fumei
Tô fora Juju me acuda
Até com o Diabo sonhei!

Peguei a raiva e soquei num pilão
Depois espalhei as cinzas ao vento
Dormi feito um anjo ao relento
Na brisa, no tempo.

CASTELO DO DR.SOZINHO

Quando me perguntam o que é a vida eu não sei responder.
Mas também não recuo diante desse mistério, e logo replico em cima afirmando que o mais importante não é saber precisamente o que ela é, mas sim conhecer a base sobre a qual toda vida repousa, a vida do corpo, da alma, do espírito, das células, dos vegetais, minerais... do amor.
Chama-se "troca" a base da vida. De tudo o que tem vida, de tudo o que existe, ou que ainda virá a existir. Chama-se troca a base de tudo.
Metade sabe à fórmula, que é muito simples: basta responder com carinho sincero todo carinho sincero que nos é dispensado. Só isso; tudo se resume nisso; eis aí o sentimento verdadeiro, a pedra filosofal da base da vida que é a troca.
Mas existe uma maldição que faz com que a outra metade simplesmente não consiga trocar.
Os integrantes dessa legião vivem tão preocupados com o próprio umbigo, com seu ego de formiga ensimesmado numa torre de papelão, que acabam esquecendo inteiramente dos outros, acabam cegos, achando que os outros é que são cegos.
O falso convencimento de que se é superior aos deuses não causa apenas cegueira; causa também a irremediável ruína.
No final das contas, ninguém quer nada com esses infelizes. Todos se afastam, e eles terminam só feito barata tonta, perambulando pelo castelo do Dr. Sozinho.

ENDEREÇO

Maria amava João mas João não amava Maria. Quando João passou a amar Maria, Maria mudou e deixou de amar João. E lá se foi uma vida inteira de desencontros, o amor água de João e o amor óleo de Maria, até que João morreu. Nem bem um mês, Maria também se foi. Finalmente descobriram que sempre se amaram, e hoje vivem felizes da vida por lá: "Estrela Azul, Quadrante do Amor, Infinito, CEP MJ 21g"

CHARLATANICES DA LÍNGUA OU: A ARTE DO ESTILO EMPOLADO

Sicofanta é uma pessoa mentirosa, velhaca, difamadora. Sinecura é um emprego no qual não é preciso trabalhar, algo parecido com prebenda ou veniaga, e azáfama significa muita pressa ou urgência.

Palavras como essas deveriam ser banidas definitivamente de qualquer discurso nos dias atuais. São palavras antigas que ninguém conhece, e não se perde nada com isso. Obsolescências puras, pura perda de tempo, palavras incompreensíveis mas que entretanto alguns continuam insistindo em utilizar.

Sou totalmente infenso a esses epígonos da charlatanice da língua, que como eu tentam mesmerizar as atenções para seus umbigos carentes através de velharias obsoletas como essas.

DARTH VADER IMPRESSIONISTA


SOBRE A ARTE DE ENVELHECER

Platão e Garcia Marques: dois chutadores deslavados sobre “a arte de envelhecer”

“Deve-se temer a velhice, porque ela nunca vem só. Bengalas são provas de idade e não de prudência”, afirma Platão.

Mentira pura! Chute total. Há milhares de jovens que também usam bengalas pelas mais diversas razões, inclusive trágicas muitas vezes. Outra coisa: e quanto à velhice que vem acompanhada de realizações, sucesso, grana e vinhotes papa fina, entre outros? Deve-se temê-la também?

“O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.”

Esse outro magistral chute é do Gabriel Garcia Marquez. Chutaço deslavado. Migué total. Enunciado niilista papo furado.

Fazer pacto com a solidão é coisa pra tatu na toca e não pra gente inteligente. Por si só, velhice não é cruz nenhuma. É apenas um tempo que requer, como direi?... que requer mais exercícios, e talvez alguns viagrinhas a mais pra botar a máquina pra funcionar – para as mulheres há outros recursos igualmente eficientes.

Então é isso. Como uma lâmpada, a cabeça também foi inventada pra funcionar até o final. Só que criativamente, construtivamente, esperançosamente.

Não meta esse tal lixo de velhice na cabeça que a dita cuja oxida e você dança.

Então vamos lá:

Antídoto nº 1: Jamais compre roupa de velhinho e mude radicalmente o visual - quanto mais louco melhor.

Antídoto nº 2: Pare de comprar revistas, entrar em sites, blogs, etc., da tal “melhor idade”. Há toda uma indústria do envelhecimento pra faturar em cima dos jecas cujas cabeças foram formatadas por essa mesma indústria.

Antídoto nº 3: Se agarre na arte. Em qualquer coisa que seja. De modo geral e ao contrário dos filósofos, os artistas – de mentirinha ou verdadeiros, tanto faz he he he – são muito menos propícios ao mito da velhice do que o resto da tropa.

Artistas pintam o sete e fazem arte até o último dia, hora, minuto, segundo, com a mesma vida e alegria que toma conta das crianças diante das rodas gigantes nos parques de diversões.

Arte brother, a chave está na arte...

FERRAMENTAS DO DIABO OU: SOBRE A ARTE DE EXORCIZAR DEMÔNIOS

Há demônios e demônios e o grau de periculosidade dessas víboras depende basicamente de duas coisas: da intensidade da astúcia inerente a cada uma delas e das ferramentas que lançam mão para detonar suas vítimas.

Entre as ferramentas utilizadas por essa corja, uma das mais sofisticadas e poderosas para arrancar o couro alheio é esta: fazer o que é bom parecer ruim, e o que é ruir parecer bom, artifício que torna os demônios que a manuseiam uma espécie à parte no mundo das maldades.

Sutil, não é mesmo ? Pois é, daí o perigo...

Quanto ao exorcismo dessa espécie de chifrudos, trata-se de prática que requer uma certa especialização, digamos assim.

Via de regra, esses troços são pseudos intelectuais recalcados, cujas teses e maneira de ser não resistem a contra-argumentações consistentes.

Então a água benta que funciona aqui é precisamente esta: desmascarar as teses desses trapaceiros a céu aberto, com lógica e fundamentação, sem dó nem piedade.

OS FOFOQUEIROS DO APOCALIPSE

Atualmente, em termos de política, a chamada grande mídia – que lentamente vai se desintegrando em todo país graças à internet – encontra-se dividida em duas grandes facções: a dos profissionais que noticiam dentro do contexto de suas respectivas linhas editoriais, e a dos profissionais da fofoca, essa legião de moral zurrapa e umbigo inflado cujos integrantes se nutrem nas teta da discórdia, ora deliberadamente para dar vazão a seus obscuros instintos de perversidade, ora a soldo dos chefões aos quais servem de papagaio de corrente e bajulam para encher o bolso de grana.

Há grandes fofoqueiros do apocalipse na internet, patota altamente especializada na escrota arte de alterar a realidade dos fatos.

Basta multiplicar por menos um todos os cocôs depositados por suas penas diariamente e eis que surge a realidade nua e crua como ela é.

Taí a patifaria desnudada.

FALÁCIAS E ALFÁCIAS

Chama-se de “falácias” a uma série de truques que são utilizados para convencer pessoas através de raciocínios e argumentações falsas, ou seja, através de raciocínios e argumentações que não passam pelo crivo da lógica elementar.

Graças às falácias, uma enormidade de pessoas engole com farinha bobagens que são escritas, ditas, veiculadas, televisionadas, proferidas por doutos inclusive, sábios, gênios e por aí vai, falácias brotam por todos os cantos.

Todo (re)formador de opinião que se preze precisa conhecer a coleção completa desses artifícios nebulosos para poder combatê-los e, assim, salvaguardar a verdade e o mundo das nefastas garras das inverdades e dos Incas Venusianos, ao lado dos Super Heróis.

Caso você seja aspirante ao nobre ofício de (re)formador de opinião, comece pesquisando sobre o tema na internet.

Quanto às alfácias, a expressão diz respeito ao modo com que Lucas, o verdureiro, costuma me inquirir todas as vezes que nos encontramos na barraca dele lá na feira.

Ao me avistar por lá, Lucas sempre fala assim: - Vai quantas alfácias hoje, Felix ?

O TRISTE VÍCIO DA LEITURA

O vício da leitura é terrível e dispendioso. Com o passar do tempo, a principal conseqüência é que ele vai plantando um outro vício dentro de nós, a tal da curiosidade, essa outra praga que surge por tabela e que no mundo acadêmico chama-se pesquisa.
Além disso, o vício da leitura corrói o bolso também, lentamente, paulatinamente.
Faz tempo que venho lutando para me desintoxicar do vício de ler, já me desfiz de grande parte da minha biblioteca, passo longe de livrarias, evito a proximidade com as novas páginas lançadas no mercado.
Já economizei um monte agindo assim, sem falar no tempo que tem me sobrado para escrever, para passear, tomar café com pão de queijo...
Mas da internet não consigo me livrar. Sou escravo da internet desde o primeiro dia em que ela aterrisou por aqui, e o meu vício da leitura persiste na rede mais forte do que nunca, já que, comparado com o vício dos livros, saiu uma merreca sustentá-lo..

IMAGENS x PALAVRAS

“Uma imagem vale por mil palavras”. Eis aí uma contabilidade tão falsa quanto afirmar que um touro pode voar. Nada é certo nesse território. Meia dúzia de palavras encouraçadas e pontiagudas também são capazes de estilhaçar mil imagens, de fazê-las em picadinho.
De resto, é preciso pensar duas vezes diante das palavras e das imagens nos dias de hoje. Sobretudo diante das imagens. A maioria sofre de inanição de palavras, e vive de imagem.

VALE TUDO: TESEU E O MINOTAURO

Posseidon era deus do mar e campeão de Jet Ski.
Certo dia Posseidon embrulhou um enorme touro branco em papel celofane vermelho e o enviou pelos correios para Minos, rei de Creta.
De acordo com o cartãozinho que acompanhava o presente, era para Minos fazer um super churrasco com o touro, mas Minos simpatizou com o bicho e decidiu poupá-lo definitivamente das brasas.
Posseidon espumou de raiva diante dessa insolência, e resolveu se vingar enfeitiçando Parsifae, mulher de Minos e rainha de Creta.
O feitiço pegou no ato. Parsifae se apaixonou a tal ponto pelo bicho que não deu outra: depois de um tempo nasceu um minotaurozinho, uma gracinha de criança com cabecinha de touro, buraquinho no queixo e olhos faiscantes como os de sua mãe.
Quando o minotaurozinho cresceu, Minos chamou Dédalo, o arquiteto, e ordenou que ele construísse um labirinto inexpugnável para o minotauro morar, um emaranhado de corredores, úmidos e sinistros, dos quais fosse impossível alguém escapulir.
Como havia vencido uma guerra contra Atenas e andava querendo fazer média com Parsifae depois dela ter feito lipo e botox, Minos passou a exigir que os atenienses enviassem sete rapazes e sete virgens, a cada nove meses, para serem devorados pelo filho bastardo de sua amada, a rainha de Creta. Indignado com essa situação, um sujeito casca grossa, chamado Teseu, se ofereceu para encarar um vale-tudo com o Minotauro dentro do labirinto.
Lá pelo décimo round, num golpe de pura sorte, Teseu conseguiu aplicar um espetacular mata-leão no adversário chifrudo, aniquilando-o de vez. Teseu saiu do labirinto guiado por um GPS que Ariádne, filha de Minos, havia dado para ele, e recebeu o cinturão da vitória.
Tempos depois, Teseu se apaixonou por Ariádne, se mandou com ela, e nunca mais deu notícias.
Ninguém sabe se foram felizes para sempre ou se acabaram na porrada em alguma Vara de Família do Olimpo, discutindo pensão alimentícia e todo o resto da bagaça.

SOBRE A ARTE DE ESCREVER

Querida amiga Glécia:

Você me envia uma mensagem com tanta doçura perguntando se eu posso ajudá-la a escrever... Claro que posso, e com o maior prazer, desde que você me compreenda, entenda que a única coisa que realmente possuímos na vida e podemos transmitir aos outros com segurança e sinceridade absolutas é nossa experiência pessoal. 

Então, para escrever é só começar, escrever todos os dias e não parar.

Quando pára, difícil o escritor que não perde a mão, e quanto mais tempo distante da escritura ele fica, mais tempo leva para fazer as pazes com ela novamente.

Com o passar do tempo, os textos vão se aprimorando gradativamente, naturalmente, e em grande parte graças aos espelhos que existem em profusão e sideram todos escritores no início, digamos assim, e isso conforme o gosto, a sintonia da alma ou até mesmo a própria índole de cada um.

É a fase do pastiche, fase que embriaga e faz avançar rápido com um cometa apressado, mas da qual um dia também sentimos necessidade de nos livrar, assim como os náufragos de rara sorte que também querem se livrar um dia dos paraísos que os acolheram de braços abertos em meio à sua fartura e beleza.

É possível descobrir no início, por exemplo, toda a beleza que há num Goethe, toda a fúria de um Carlyle cujas palavras explodem feito dinamite no peito do leitor, toda a meticulosidade e obstinação pelo detalhe de um Montaigne (ah! os Ensaios de Montaigne...), os labirintos de Borges, os adoráveis Cronópios de Cortázar ao lado de seus Famas não menos adoráveis embora chatos que só eles, o inferno segundo Dante, Quixote, Barthes com sua escritura à qual nenhuma intimidade resiste, o enigmático corvo de Poe e todos poetas "malditos" sem exceção, porque suas obras encerram tanto o Bem quanto o Mal e, portanto, não pode haver obras mais completas do que essas, coisas horrivelmente belas como as que Lautréamont escreveu nos seus Contos de Maldoror e por aí vai ...

E tudo para no final das contas descobrir que ninguém jamais escreveu como Camilo Castelo Branco, nem mesmo Sheakespeare ou Eça.

Claro que se trata de uma mera opinião pessoal, mas a experiência está aí, para você e para quem quiser aproveitá-la, eis aí parte dos meus espelhos, do trajeto que fiz.

Também li dezenas de livros que tentavam "ensinar" como escrever.

Dessa pilha de enganos, só separei duas obras: "A arte de escrever", de Antoine de Albalat, e "Escritores em ação", do ilustre desconhecido Malcolm Cowley.

Papagaios de corrente da pior crítica literária francesa, muitos intelectuais tupiniquins se empenharam anos a fio em atear fogo na "A arte de escrever" de Albalat, fazendo, infelizmente, com que essa bela obra didática caísse no mais profundo esquecimento entre nós, mas ela ainda pode ser encontrada facilmente na internet ou nas bibliotecas públicas. 

Quanto ao "Escritores em ação", é o que eu chamo de "livro-gibi", mas nem por isso deixo de recomendá-lo a todos, principalmente aos que estão começando na escritura.

Inicialmente, a obra existia apenas nas livrarias, depois migrou para as gôndolas dos aeroportos, depois para as farmácias e lojinhas de conveniência dos postos de gasolina e, finalmente, creio que hoje ela só existe mesmo nos sebos.

Agora conheça esse magnífico espelho aí em baixo e quando precisar de mim estou à sua inteira disposição.

Beijos com carinho,

Felix.


O Brinquedinho Do Pobre

Charles Baudelaire

Quero dar a ideia de um divertimento inocente. Há tão poucas diversões que não sejam culposas!

Quando você sair pela manhã com a decidida intenção de vagar pelas estradas, encha seus bolsos de pequenas invenções de um tostão -- tais como simples polichinelo puxado por um só fio, os ferreiros que batem a bigorna, o cavaleiro com seu cavalo cuja cauda é um apito, -- e ao longo das tabernas, ao pé das árvores, faça um oferenda às crianças desconhecidas e pobres que encontrar. Você verá seus olhos se dilatarem desmedidamente.

Primeiro, não vão ousar tocar; vão duvidar de sua felicidade. Depois suas mãos vão agarrar avidamente o presente e vão fugir como fazem os gatos que se afastam para comer longe de você o bocado que você lhes deu, tendo aprendido a desconfiar do homem.

Numa estrada, atrás da cerca de um vasto jardim, no fim do qual aparecia a brancura de um belo castelo fustigado pelo sol, se encontrava uma criança bonita e viçosa, vestida com estas roupas de campo de tanta faceirice.

O luxo, a despreocupação e o espetáculo habitual da riqueza tornam estas crianças tão bonitas que as julgaríamos feitas de uma massa distinta da dos filhos da mediocridade ou da pobreza.

Ao seu lado, jazia na relva um brinquedinho esplêndido, tão viçoso quanto o seu dono, envernizado, dourado, trajado com uma roupa púrpura, e coberto de plumas e miçangas.

Mas a criança não dava atenção ao seu brinquedinho preferido, e eis o que ela olhava: Do outro lado da cerca, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outra criança, suja, raquítica, fuliginosa, um destes moleques-párias de que um olhar imparcial descobriria a beleza, se, como o olhar do entendido intui uma pintura ideal sob um verniz de segeiro, retirasse-lhe a repugnante pátina da miséria.

Através destas grades simbólicas que separam dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à criança rica o seu próprio brinquedinho, que esta examinava avidamente como a um objeto raro e desconhecido.

Ora, este brinquedinho, que o moleque sujinho irritava, agitava e chacoalhava numa caixa gradeada, era um rato vivo! Os pais, sem dúvida por economia, haviam tirado o brinquedinho da própria vida.

E as duas crianças riam uma para a outra fraternalmente, com dentes de igual brancura.

SORTE E AZAR

As tatuagens sulcadas nas janelas translúcidas dos templos
A lua de prata que outrora se inclinou sobre a tua face
O desejo inútil que levará o condenado a ruir no cadafalso etc. etc. etc.
Tudo é nada neste instante
Só o tempo permanece.

As fluídicas horas e as frações que elas carregam no ventre
Nada mais e kabum! de repente
Tudo volta a ser igual como era antes.

Luz
Cristal
Vida
Incandescência

Semente...

Tudo volta a ser igual como era antes sempre
Sorte e azar eternamente.

Felix Rego

LK


HOPPER

"Se você pudesse dizê-lo em palavras, não haveria razão para pintar." (Edward Hopper)

NIETZSCHE


Sorte e azar.

O pensamento lógico e o pensamento mágico.
O pensamento lógico, utilizado pelas ciências, é organizado, além de permitir o controle da situação e uma certa previsibilidade, obtida através da teoria das probabilidades.
No pensamento lógico um homem não consegue abrir o mar através de um simples gesto. Entretanto, no pensamento mágico esse truque é plenamente possível e aceito sem maiores resistência.
Sorte e azar fazem parte do pensamento mágico e são acontecimentos que escapam a qualquer tipo de controle e previsibilidade utilizados no pensamento lógico.
Alguém sai de casa num dia bonito e bate o carro que acabou de retirar da concessionária porque o pneu dianteiro do veículo estourou repentinamente.
Os supersticiosos chamam isso  de "azar"  e costumam pendurar figas, fitas vermelhas ou algo que o valha em seus carros para evitar tais acontecimentos.
Pensamento lógico e pensamento mágico são como um pau de dois bicos.
Quem opera com ambos tem mais sorte; quem opera com um só tem mais azar.

O triste fim das livrarias.

Minha vizinha Estela disse que todas as livrarias estão fechando porque ninguém mais quer ler.
Mas acho que ela não tem razão. Na verdade, a maioria nunca quis ler nada mesmo, e muitos compravam livros apenas para encher as estantes cheirando a cerejeira, imbuia ou mogno, que eram vendidas antigamente.
Com o desaparecimento daquelas madeiras nobres do mercado as estantes desapareceram do mapa e, como consequência, os livros e as livrarias se foram também.
Para sobreviver, as livrarias que ainda se encontram de portas abertas mantém uma meia dúzia de livros num canto qualquer e praticamente se tornaram papelarias misturadas com lojas de presentes.
O que não é lá um final muito honroso para quem já vendeu os Clássicos e muitos outros livros que transformaram o mundo.
A Estela também acha que a culpada dessa tragédia bookniana toda é a Internet com suas redes sociais, o WhatsApp, o Face e por aí vai.
E ela acha tudo isso embora nunca tenha lido um livro na vida. Lido um livro até o final, bem entendido.

Pessoas tóxicas.


Alimento para a Alma: pequeno tratado das grandes virtudes.

👉 Clique AQUI.

Profecia.

As comemorações e manifestações sobre a segunda condenação do ex-presidente Lula revelam nitidamente o grau de boçalidade e despreparo de alguns parlamentares.

É evidente que não há nada de bom nessa gente, que vive e opera na base da fofoca e da baixaria, nada neles e nelas que aproveite ao país.

Segundo o Oráculo, vão se dar muito mal.

Lula pega mais 12 anos e 11 meses de cana por corrupção e lavagem de dinheiro.

A canetada foi da juíza Gabriela Hardt, em virtude das tretas do sítio de Atibaia envolvendo o ex-presidente petista. Lula curte uma cozinha Kitchens como ninguém. Lula vai apodrecer na cadeia.