HISTÓRIAS DO CADERNO COM ESPIRAL ENFERRUJADA: A PERUCA DE PALOMA

Paloma lavou a peruca e a colocou para secar no sol. Depois penteou-a, passou laquê e colocou-a para descansar numa cabeça de plástico branco que havia sobre a cômoda do quarto - Paloma pretendia usar a peruca na festa de formatura de sua filha, que estava marcada para começas às nove horas da noite no principal clube da cidade.

Paloma tomou banho às seis horas, às sete colocou a peruca e começou a se maquiar. Às oito e pouco, faltando menos de uma hora para o início da festa, Paloma se espremeu para entrar no vestido rosa cravejado de pedras que mandou reformar.


Assim que fechou o zíper, sentiu uma tontura profunda: a vista de Paloma escureceu mas numa fração de segundos ela ainda conseguiu enxergar a cama para desabar sobre o colchão macio.

Desacordada, entre um espasmo e outro, Paloma urinou e defecou várias vezes no vestido engomado, ao mesmo tempo que uma baba amarelo-bílis corria do canto de sua boca, emporcalhando a peruca.

Paloma já chegou morta no hospital.

Debaixo da peruca, aninhadas entre o forro e a trama de fios, os médicos encontraram inúmeras quelíceras encharcadas de veneno, que muito provavelmente causaram a necrose em forma de mapa da America do Sul no couro cabeludo de Paloma.