DIÁRIO DA PANDEMIA: O SR. MALANDRO AGULHA

A família não era lá essas coisas.

O filho se virava jogando dados e fazendo truques com cartas no centro da cidade, enquanto o pai saia nas manchetes dos jornais como ladrão de tocafitas.

A mãe também não era flor que se cheirasse. Certa vez quebrou de pau uma vizinha. Bateu nela com uma enxada e arrancou o dedinho do pé da vítima. Depois disse na delegacia que foi porque a vizinha falou que ela tinha cara de biscate.

A avó era outro ímã de encrencas. A velha tinha mania de cuspir nos outros. Quer ver no pessoal que fazia a leitura da água e da luz na casa. Daí a velha dizia que eles eram "espiões malignos" e dê-lhe cusparada catarrenta. O que dava BO quase todo mês.

Enfim, só sobrava mesmo o avô, que era o único que trabalhava pra sustentar o bando.

Mas que fique claro uma coisa: o velho trabalhava em termos. Já estava na vigésima carteira de trabalho o cidadão. Vivia de ações trabalhistas e de salários desemprego, passou a vida assim, trampando de galho em galho.

Malandro agulha o velho. Desses malandros que apronta mas que nunca sai da linha pra não se ferrar.