SOBRE A ARTE DE ESCREVER

Querida amiga Glécia:

Você me envia uma mensagem com tanta doçura perguntando se eu posso ajudá-la a escrever... Claro que posso, e com o maior prazer, desde que você me compreenda, entenda que a única coisa que realmente possuímos na vida e podemos transmitir aos outros com segurança e sinceridade absolutas é nossa experiência pessoal. 

Então, para escrever é só começar, escrever todos os dias e não parar.

Quando pára, difícil o escritor que não perde a mão, e quanto mais tempo distante da escritura ele fica, mais tempo leva para fazer as pazes com ela novamente.

Com o passar do tempo, os textos vão se aprimorando gradativamente, naturalmente, e em grande parte graças aos espelhos que existem em profusão e sideram todos escritores no início, digamos assim, e isso conforme o gosto, a sintonia da alma ou até mesmo a própria índole de cada um.

É a fase do pastiche, fase que embriaga e faz avançar rápido com um cometa apressado, mas da qual um dia também sentimos necessidade de nos livrar, assim como os náufragos de rara sorte que também querem se livrar um dia dos paraísos que os acolheram de braços abertos em meio à sua fartura e beleza.

É possível descobrir no início, por exemplo, toda a beleza que há num Goethe, toda a fúria de um Carlyle cujas palavras explodem feito dinamite no peito do leitor, toda a meticulosidade e obstinação pelo detalhe de um Montaigne (ah! os Ensaios de Montaigne...), os labirintos de Borges, os adoráveis Cronópios de Cortázar ao lado de seus Famas não menos adoráveis embora chatos que só eles, o inferno segundo Dante, Quixote, Barthes com sua escritura à qual nenhuma intimidade resiste, o enigmático corvo de Poe e todos poetas "malditos" sem exceção, porque suas obras encerram tanto o Bem quanto o Mal e, portanto, não pode haver obras mais completas do que essas, coisas horrivelmente belas como as que Lautréamont escreveu nos seus Contos de Maldoror e por aí vai ...

E tudo para no final das contas descobrir que ninguém jamais escreveu como Camilo Castelo Branco, nem mesmo Sheakespeare ou Eça.

Claro que se trata de uma mera opinião pessoal, mas a experiência está aí, para você e para quem quiser aproveitá-la, eis aí parte dos meus espelhos, do trajeto que fiz.

Também li dezenas de livros que tentavam "ensinar" como escrever.

Dessa pilha de enganos, só separei duas obras: "A arte de escrever", de Antoine de Albalat, e "Escritores em ação", do ilustre desconhecido Malcolm Cowley.

Papagaios de corrente da pior crítica literária francesa, muitos intelectuais tupiniquins se empenharam anos a fio em atear fogo na "A arte de escrever" de Albalat, fazendo, infelizmente, com que essa bela obra didática caísse no mais profundo esquecimento entre nós, mas ela ainda pode ser encontrada facilmente na internet ou nas bibliotecas públicas. 

Quanto ao "Escritores em ação", é o que eu chamo de "livro-gibi", mas nem por isso deixo de recomendá-lo a todos, principalmente aos que estão começando na escritura.

Inicialmente, a obra existia apenas nas livrarias, depois migrou para as gôndolas dos aeroportos, depois para as farmácias e lojinhas de conveniência dos postos de gasolina e, finalmente, creio que hoje ela só existe mesmo nos sebos.

Agora conheça esse magnífico espelho aí em baixo e quando precisar de mim estou à sua inteira disposição.

Beijos com carinho,

Felix.


O Brinquedinho Do Pobre

Charles Baudelaire

Quero dar a ideia de um divertimento inocente. Há tão poucas diversões que não sejam culposas!

Quando você sair pela manhã com a decidida intenção de vagar pelas estradas, encha seus bolsos de pequenas invenções de um tostão -- tais como simples polichinelo puxado por um só fio, os ferreiros que batem a bigorna, o cavaleiro com seu cavalo cuja cauda é um apito, -- e ao longo das tabernas, ao pé das árvores, faça um oferenda às crianças desconhecidas e pobres que encontrar. Você verá seus olhos se dilatarem desmedidamente.

Primeiro, não vão ousar tocar; vão duvidar de sua felicidade. Depois suas mãos vão agarrar avidamente o presente e vão fugir como fazem os gatos que se afastam para comer longe de você o bocado que você lhes deu, tendo aprendido a desconfiar do homem.

Numa estrada, atrás da cerca de um vasto jardim, no fim do qual aparecia a brancura de um belo castelo fustigado pelo sol, se encontrava uma criança bonita e viçosa, vestida com estas roupas de campo de tanta faceirice.

O luxo, a despreocupação e o espetáculo habitual da riqueza tornam estas crianças tão bonitas que as julgaríamos feitas de uma massa distinta da dos filhos da mediocridade ou da pobreza.

Ao seu lado, jazia na relva um brinquedinho esplêndido, tão viçoso quanto o seu dono, envernizado, dourado, trajado com uma roupa púrpura, e coberto de plumas e miçangas.

Mas a criança não dava atenção ao seu brinquedinho preferido, e eis o que ela olhava: Do outro lado da cerca, na estrada, entre os cardos e as urtigas, havia outra criança, suja, raquítica, fuliginosa, um destes moleques-párias de que um olhar imparcial descobriria a beleza, se, como o olhar do entendido intui uma pintura ideal sob um verniz de segeiro, retirasse-lhe a repugnante pátina da miséria.

Através destas grades simbólicas que separam dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à criança rica o seu próprio brinquedinho, que esta examinava avidamente como a um objeto raro e desconhecido.

Ora, este brinquedinho, que o moleque sujinho irritava, agitava e chacoalhava numa caixa gradeada, era um rato vivo! Os pais, sem dúvida por economia, haviam tirado o brinquedinho da própria vida.

E as duas crianças riam uma para a outra fraternalmente, com dentes de igual brancura.